terça-feira, 16 de novembro de 2010

O VISITANTE

                O Visitante, já foi lançado há algum tempo, mas desde que vi o trailer, ele ficou me “chamando” e não pude vê-lo naquele momento...como tenho imensa dificuldade de organização nessas questões de final de semana, ver os “lançamentos”, estar sempre atualizada no que há de mais “quentinho”, etc...vou me respeitando e quando as coisas fluem e se encaixam, deixo acontecer e pronto!    
            As mensagens que tinham que ficar, ficam, os aprendizados se consolidam e aquelas falas e cenas, sons e personagens, ficam circulando em mim por horas, dias, semanas, às vezes...
            Meus pacientes sabem disso... levo os personagens para o consultório, faço analogias com as questões que estamos trabalhando, porque pra mim é difícil ser diferente...não me deixar penetrar por aquilo que é vivido, sentido, experimentado...
            Penso que este filme tocou, de maneira diferente, por vários motivos, mas em especial, por causa do “objeto intermediário” utilizado para tirar o personagem principal do engessamento emocional em  que estava vivendo... para quem ainda não viu o filme, a história fala de um professor universitário, cuja vida entediante era baseada em conservas culturais, como dar aulas convencionais, de acordo com o protocolo da universidade em que trabalhava, sem o menor encantamento pelo que fazia. Praticamente um homem-robô, escravo, dos padrões que ele próprio, em outro momento de sua vida escolheu e que, agora já não lhes serviam mais, melhor, o estavam tornando infeliz, mas que ele não encontrava caminhos para mudar...
           Este professor, Walter,  não desempenhava nenhum papel com espontaneidade, portanto, com criatividade e graça também, suas aulas eram entediantes e fraudulentas e ele próprio sentia-se assim...até que forçosamente teve que se deslocar até uma cidade vizinha e, chegando ao seu apartamento se depara com dois “intrusos”, mas que, no filme, eram pessoas “do bem”...não vou contar o filme todo aqui!!!
            Quero compartilhar o que ficou...a mensagem que passou...seja lá o que tivermos intenção de fazer, se não estivermos inteiros, de coração, livres dos estereótipos, despidos da massacrante regra que a felicidade imposta pelo “politicamente correto” nos sugere, dificilmente seremos honestos a ponto de permitir-nos momentos felizes e de encontro conosco mesmos.
            Enquanto o pobre e infeliz Walter estava dentro dos padrões externos, não conseguiu realizar-se, precisou ver, perceber e viver junto aos imigrantes ilegais, que estavam em seu apartamento, uma vida autêntica e bastante simples, para descobrir-se.
            Não estou fazendo apologia a uma vida desregrada, ilegal, com um saquinho nas costas, uma fita na cabeça e somente amor no coração, tampouco uma crítica a quem assim escolhe viver, porém, constatando que, neste caso, foi crucial que aquele professor deixasse brotar de dentro de si, através da observação e convivência com seres diferentes e “de verdade”, a sua verdade.               
           Considero que o objeto intermediário, do qual falei no início do texto, foi crucial para a aproximação  dos personagens e desempenhou importantíssimo papel na trama, pois foi através da música que o protagonista resgatou sua espontaneidade e  sua paixão pela vida...
           O objeto intermediário, que falo é um tambor que o imigrante, Tarek, tocava e que  Walter aprendeu a tocar...a música possui uma magia, capaz de quebrar conservas, de tornar pesos da vida que antes carregávamos como pedras, em sinfonias leves como valsas...a música transporta, conforta, salva, corrige e cura...é portanto terapêutica, agente de saúde e de ligação...
           No filme, apesar de todos os percalços, foi o que o imigrante deixou de “herança”  e aprendizado ao “rígido” professor que, na verdade só estava a espera de alguém que pudesse relacionar-se com o seu núcleo de saúde e permitir que pudesse ser!
          O quanto, muitas vezes, arriscar-se no desconhecido, poderá nos trazer certa dose de saúde, por nos libertar da “armadura” construída para nos defender daquilo que não conhecemos ou que conhecemos demais, por isso é tão difícil sair de dentro dela...
           Como tantas outras lições, de tantos outros momentos, desde que estejamos abertos e atentos, este é mais um... em que o nome do filme, inteligente e brilhantemente ilustra...o visitante...neste caso, dele mesmo...
           Que delícia sabermos que sempre é tempo de nos visitarmos e descobrirmos novas paisagens, novos lugares, novos sons, cheiros e cores que ainda não conhecíamos, que ainda não havíamos estado lá, pelo menos não com esse olhar...e o mais legal disso tudo...o custo é zero...e a distância é mínima... e a companhia muito legal!
A viagem é pra dentro de nós mesmos! Vamos?!
           

domingo, 14 de novembro de 2010

O EU E OS TUS DE NOSSA HISTÓRIA ...

          Nascemos e crescemos em interação com o outro... nos construímos e firmamos nossa identidade a partir do olhar desse outro que me (des)confirma no desempenho dos mais diferentes papéis, nos diversos contextos, e pelos diferentes caminhos, que atravesso em minha vida...
          E é nessa dança dos papéis... nesse movimento em que o meu olhar aprova o outro e que o oposto também acontece que vamos consolidando nossa “digital” e aprendemos como se dá a relação do eu e do tu, assim como apreendemos quem somos nós no mundo...a princípio, uma equação bastante simples, mas na prática... de uma complexidade inominável!
          Reconhecer o eu implica em saber quais são os meus parâmetros, meus limites...minhas vontades,ouvir e respeitar minha voz interna, acolher meus desejos, sem que isso interfira ou arranhe o espaço do tu!!! E quem é esse tu??? Onde começa o espaço dele??? Afinal a linha que nos separa é tão tênue... pois se me construo a partir dele...como descubro o limite de nossas fronteiras? Esse processo começa lá na infância, no início da nossa vida... Com o auxílio de uma mãe suficientemente saudável, que fará a separação e nos permitirá a autonomia necessária para que possamos ousar ser e estar no mundo separados dela, a quem estivemos “misturados” e dependentes por bom tempo de nossa existência...
         Essa mãe precisará compreender que é chegada a hora da criança arriscar-se, com segurança, em determinadas vivências, descobrir o mundo, e se não tiver segurança para tal, poderá procurar auxílio, para que seu filho possa crescer saudável e com condições de enfrentar a vida que se impõe à frente...
         A partir de então o eu se construirá separado do tu (mãe), que permitirá a autonomia. Então a criança entende que o tu é alguém que está fora de si, que tem vida própria, desejos, vontades e deve ser respeitado como tal... Não está a seu serviço, não poderá ser utilizado para satisfazer apenas suas vontades e desejos. Entre outros momentos deste processo, se esta passagem for “tranqüila” entre os membros da díade, esta criança terá amplas oportunidades de estabelecer relações bastante saudáveis no futuro e aprenderá a respeitar seus limites e os limites do outro (tu).
         Fico pensando o quanto a presença do semelhante é necessária, absurdamente necessária, importante, indispensável! Mas não posso fazer disso uma condição para que ele suporte qualquer coisa que venha de mim... Esse outro, ao qual me refiro, é outro que está presente e junto, mas com sua individualidade e singularidade...seus limites...um Tu, não um isso...do qual posso dispor e descartar ao meu “bel prazer”...explico: as relações, sejam elas de amizade, amor-sexualidade, conjugalidade, etc...começam, em algum momento de seu convívio perdendo a noção de onde os territórios são demarcados e os usos e abusos podem colocar em risco a edificação de lindas histórias, que foram construídas, ao longo de anos, décadas, vidas...
       Muitas vezes, o conflito está no vínculo, porém em alguns casos, observa-se que são as pessoas que tem pouco claro para si “quem sou eu”, “quem és tu”, então, busca-se um resgate na matriz de identidade desses “pontos cegos”, nos encontramos com quem somos nós e, na maioria das vezes, com quem são os outros...
       Todos temos limites, fronteiras... fronteiras do Eu, do Tu e se essas fronteiras não forem respeitadas, estaremos adentrando perigosos territórios, onde poderá ser difícil perceber a sutil demarcação de onde termina o meu espaço de atuação e onde deve começar o teu... Se não tenho essa percepção, o outro deixa de ser um Tu e passa a ser um isso, porque não mais é percebido por quem realmente é, mas pelo quanto poderá ser útil, àquilo que estou buscando... Será que temos essa noção em nossas relações?! Do quanto os vínculos construídos e a manutenção destes está exclusivamente, a nosso serviço?! São vínculos amorosos, afetivos, de conveniência?!
       Reconheço a complexidade dessa questão e sinto que o “segredo” é o mesmo de sempre... O autoconhecimento... Quanto mais sei quem sou, maiores as chances de me diferenciar do outro eu tenho, menores serão as oportunidades em que tomarei o seu espaço e invadirei as fronteiras do seu território...       
       Mas para isso preciso, constantemente, lembrar-me: eu sou eu, tu és tu... E juntos, se desejarmos, enquanto for confortável, no tipo de relação que estivermos escolhendo ter... somos nós!!! Não somos isso!!! Ufa!!!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE (TDAH)

       O TDAH é um transtorno neurobiológico, que se caracteriza por sinais claros e repetitivos de desatenção, inquietude e impulsividade.
       Existem vários graus de manifestação do TDAH,podendo levar a criança e/ou adolescente a experimentar significativos problemas de relacionamento, adaptação, desempenho escolar, entre outros. Embora seja um transtorno mais comumente identificado na infância, os adultos também podem ser portadores deste transtorno, predominantemente com sintomas de desatenção, sendo menos freqüente que a hiperatividade os acompanhe até a idade adulta.
      Estima-se que 3% a 5% das crianças em idade escolar possam ter TDAH. Na literatura existente encontra-se a maior prevalência de crianças em torno dos 9 anos de idade, normalmente quando estão ingressando na quarta série.O diagnóstico precoce é de extrema importância,para a identificação do transtorno, uma vez que se mal compreendidos ou ignorados estes sintomas, a criança poderá sofrer preconceitos, discriminação. Poderá adquirir, no contexto em que vive o estereótipo de “desorganizado”, “relapso”, bagunceiro”, “incapaz intelectualmente”, podendo ter baixa auto-estima e outros conflitos de ordem emocional e relacional, decorrentes da constante rejeição que sofre.Embora, num primeiro momento possa parecer difícil, é perfeitamente possível, com tratamento e manejo adequados, por parte dos pais, profissionais e da escola, que esta criança tenha um desempenho acadêmico satisfatório, desde que percebida adequadamente e respeitada.
        O diagnóstico deverá ser realizado por equipe multiprofissional (neurologista, psicólogo, fonoaudiólogo) e o tratamento poderá ser medicamentoso, com reabilitação neuropsicológica (realizada pelo neuropsicólogo clínico), habilitando o paciente para readaptar-se, assim como desenvolver estratégias de enfrentamento de suas dificuldades desadaptativas, resultantes do TDAH.
       Sabe-se que o TDAH é um dos transtornos que, quando não compreendido corretamente por pais e educadores, pode gerar na criança um sentimento de permanente inadequação e fortes sentimentos de rejeição , assim como inabilidade para lidar com as situações, pois é permanentemente desconfirmada nas suas atitudes, o que a impede de acreditar em si mesma e agir adequadamente. A criança não escolhe deliberadamente “não parar”, “intrometer-se nas conversas, sem esperar sua vez”, “mover-se como se estivesse ligado num motor”, perder os materiais da escola, relutar em fazer as tarefas e sofrer represálias, por conta desses comportamentos! Ela simplesmente não consegue fazer diferente!
        Os comportamentos acima citados, quando a criança possui o TDAH, nada têm a ver com preguiça, “relaxamento”, desinteresse, por parte da criança, como sugerem alguns pais. É, como o próprio nome diz, um Transtorno que impede que o curso natural do aprendizado e do desenvolvimento intelectual, social, relacional e emocional desta criança, que precisa ser diagnosticada e tratada, não rotulada e rejeitada!
      Desejamos e buscamos ser amados, aceitos, reconhecidos, desde nossa tenra infância até o fim dos nossos dias! Portanto, descartada outra condição clínica, comportamental ou relacional que possam estar gerando esses comportamentos, seu filho pode ser portador de TDAH e estar em sofrimento, por esta condição.
Já pensou sobre isso?!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

TERAPIA: ATO DE FRAGILIDADE OU CORAGEM?

             Interessante observarmos que as crenças que carregamos e conceitos que acreditamos ser corretos sofrem profundas transformações quando nos deixamos “levar” pelo gosto de experimentar, ousar e nos “arriscamos” no processo da psicoterapia..
          Sabe-se que o “desconhecido” amedronta, especialmente quando “suspeitamos” que o “estranho” que ainda está por vir surgirá do nosso interior e hoje convivemos com esse “outro” sem consciência disso!Entretanto, percebemos que os indivíduos que se deixam seduzir pela possibilidade de aprofundar-se em si mesmo e embarcam nessa deliciosa viagem que é conhecer-se e apropriar-se de seus sentimentos, emoções e comportamentos, conquistam uma bagagem cujo valor é inominável!
          Embora saibamos que nossa cultura privilegia o sucesso e nos esforcemos (às vezes compulsivamente) para parecermos exitosos em nossa vida, a condição de humanos não permite que permaneçamos em estado de euforia, assim como de tristeza constantemente, porque não suportaríamos! O stress provocado pela euforia invariável ou tristeza permanente, nos adoeceria dramaticamente, se houvesse uma linearidade em qualquer dos dois estados!
             Existe uma tendência a negligenciarmos nossas emoções e sentimentos, sob pena de parecermos desajustados aos olhos daqueles que nos rodeiam. Então “estocamos” anos e anos de emoções reprimidas, entendimentos de fatos, completamente equivocados e inadequados, sem perceber que, com isso estamos adoecendo, às vezes de forma sutil, mas ainda assim, adoecendo...
           No senso comum, encontramos a falsa crença de que quem faz terapia se “expõe”, se fragiliza e isso pode nos tornar humanos menos capazes de suportar os eventos da vida...ou isso nos tornaria simplesmente mais humanos e portanto, mais honestos com a nossa condição, às vezes frágil, às vezes forte,mas absolutamente coerentes com a nossa condição...de humanos?!
           A vida e o estar vivo é exatamente isso... tornar-se consciente de nossa natureza, experimentar a dualidade de todas as coisas...inclusive das nossas emoções que sofrem variações conforme as experiências que passamos! Aceitemos nossa condição e nos permitamos viver e conviver com a polaridade dos sentimentos, dos acontecimentos, sem medo de perder o “controle” das situações!
           Bem pior do que nunca ter fracassado é jamais ter sabido quem se é...bem pior do que acreditar que cuidar-se é  falhar, é jamais ter tido coragem de olhar para dentro de si...Vemos, com freqüência, em situações dolorosas, como um velório, por exemplo, pessoas sugerindo àqueles que sofrem pelo ente querido que se foi, que tomem um copo d’água, comprimidos, um banho em casa, acreditando que estamos sendo generosos...e talvez com essa verdadeira intenção, mas na verdade, estamos tentando afastar de nosso olhar a angustiante cena da dor, do choro incontido, do sofrimento que nos toca profundamente, porque a emoção do outro inquieta, desorganiza! Porque mexe com a nossa emoção.
 O choro, às vezes a tristeza, a dor, são absolutamente necessárias ao nosso desenvolvimento e, ao contrário do que possa parecer, alivia e conforta...também ao contrário do que possa parecer, para fazer terapia são necessários duas grandes virtudes...extrema humildade e imensa coragem, afinal...não é todo dia que temos a possibilidade de “nascer” diferentes e, certamente, pessoas mais leves, felizes e bem melhores!!! Coragem!!! Essa é a grande qualidade de quem senta "naquela" cadeirinha e compartilha sua história...coragem, não fragilidade!!!
           
           

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

DO SÁBIO MÁRIO QUINTANA...

Hoje escrevi sobre os relacionamentos, as exigências e atrapalhos que acabam ocorrendo no decorrer desse processo...depois disso fiquei pensando num texto... Há muito conheço um que na época que li, mexeu demais comigo. Eu, que sempre fui avessa as convenções e me coloquei um pouco à margem de tudo o que era "politicamente correto” não sabia explicar muito bem o porquê da minha identificação com este grande cara, mas hoje entendo que seguir uma lógica "pronta" sem o questionamento do impacto disso em mim é inadmissível...então...aí está...um pouco do que poderia começar diferente, para que terminasse também diferente...do nosso gaúcho Mário Quintana

Sermão de casamento
Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre:

"Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?"
Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões:
- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga (o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e, portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
- Promete se deixar conhecer?
- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
- Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?
Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declaro-os maduros.
Escolha o seu amor. Ame a sua escolha!
Mário Quintana

O AMOR NOSSO DE CADA DIA...

       
            Passamos a vida sonhando com o príncipe que nos seduzirá pelo resto dos nossos dias! Idealizamos o par perfeito e nesta caminhada, vamos “descartando” as peças improváveis que não se encaixam no nosso quebra-cabeças.
       Quando nos sentimos preparados para a vida a dois, casamos, vamos morar juntos, concretizando o tão esperado sonho...constituir uma família, ao lado de um homem/mulher, ao qual prometemos coisas muito sérias, sem ter a menor noção do que isso significará pelo resto dos dias que viveremos ao seu lado!
        Começa então a construção de um novo papel, que exige uma conduta associada a este papel...malabarismos para equilibrar gostos e gastos, maneiras de ver e sentir a vida, administração das coisas do dia-a-dia, da educação dos filhos, quando estes chegam, etc.
       A característica fundamental deste convívio deve ser a flexibilidade e a humildade em reconhecer o espaço do outro e a hora de recuar e respeitar, assim como fazer-se respeitar, tudo isso sem que a vida a dois não se torne um martírio!
        E nesta convivência onde a parceria e a cumplicidade deveriam ser absolutas, nem sempre a competição cede lugar...então...passamos as horas, os dias ou anos  numa relação que mais parece um jogo de tênis! Os  casais tentam exaustivamente “matar o ponto” e, dessa forma, sentem-se “vitoriosos”, não sei bem em relação a que ou a quem...mas vitoriosos, porque aquele ao qual prometemos coisas muito nobres, há algum tempo atrás, está em desvantagem, perdeu, é o nosso adversário!!!!
       É uma lógica ambígua, pois o companheiro é alguém que se escolhe para caminhar juntos, unir forças, compartilhar idéias, projetos, dores e sabores da vida diária. Entretanto, ao invés de investirmos em nós mesmos, nossos projetos, nosso crescimento e desenvolvimento como pessoas, o que certamente nos tornará mais atraentes e envolventes, desperdiçamos nossa energia na destruição do outro! E o outro é nosso cônjuge!?
        Pior do que viver assim é não ter a exata consciência de quem se é, tanto como pessoa, quanto, como parceiro, e não buscar os caminhos para sua satisfação e felicidades!
       Claudia Raia e Edson Celulari, por exemplo, parecem ter vivido, com tudo que uma relação tem de bom e de ruim, durante duas décadas e tiveram a coragem de serem verdadeiros e leais a si próprios, quando findaram a relação, onde os papéis de marido e mulher se esgotaram. Há quem diga que a relação não deu certo! Como não?! Deu certo, siiiim!!! Durante quase vinte anos! Não daria agora, quando se aperceberam que o vínculo se esgotou...mas pra isso é preciso  correr um certo “risco”  e autenticidade...características que pessoas que se conhecem profundamente conquistam quando o assunto é a busca da sua felicidade...
        O amor da vida adulta consiste, entre tantas outras coisas, em manter essa disponibilidade de compartilhar, crescer juntos, rir das falhas, entregar-se, para o vínculo! Sem utilizar, perversamente, as dificuldades do outro, como arma letal que mata o afeto, o sexo e o futuro...não acreditamos, verdadeiramente, que o príncipe se transforma naquele ser verde, de aparência brilhante  e gosmenta, sem o nosso auxílio, não é mesmo?!           
           
           
           

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

“MANIA” OU COMPULSÃO?!

       O Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) é um transtorno bastante comum, com prevalência em torno de 2,5% na população, ou seja, uma em cada 40 pessoas apresenta a doença, ao longo da vida. Em geral acomete pessoas jovens, no final da adolescência, sendo comum iniciar na infância. Entre adultos, a incidência é levemente superior em mulheres.É caracterizado pela persistência e recorrência de obsessões (pensamentos, palavras, frases, cenas ou impulsos, considerados impróprios ou inaceitáveis) que invadem a consciência do indivíduo, causando medo e desconforto.
     O indivíduo que experimenta essa condição tenta ignorar, suprimir ou neutralizar as obsessões, através de compulsões ou rituais (atos estereotipados e repetitivos), que em geral ocupam parte significativa do seu tempo, interferindo na rotina diária, em diferentes contextos de sua vida. As obsessões mais comuns são as ligadas à sujeira, contaminação, as de simetria e armazenagem de objetos, assim como os pensamentos de conteúdo mágico, agressivo e sexual. Numa tentativa de neutralizar as obsessões, o indivíduo desenvolve rituais como compulsões por lavagens excessivas, verificações ou repetições (verificar várias vezes se realmente trancou a porta, fechou o gás, a torneira, etc), alinhar e colecionar objetos inúteis, contar, repetir palavras, frases, movimentos, etc.       
     Esses comportamentos têm o objetivo de prevenir, reduzir ou abrandar o desconforto gerado pela idéia obsessiva, por alguma situação temida ou, ainda, aliviar a ansiedade gerada por determinada situação.
     Como os comportamentos compulsivos tendem a ser repetitivos e contínuos, muitas vezes eles acontecem automaticamente, podendo o sujeito reservar um tempo expressivo para tais realizações, comprometendo de forma importante, o trabalho, a vida social, familiar e afetiva.
       Os indivíduos portadores desse transtorno revelam intenso sofrimento, pois sentem angústia e ansiedade na impossibilidade de realizar a atividade compulsiva, desenvolvendo uma “dependência” da efetivação dessas atitudes, como alívio de sua aflição. Em casos mais sérios observa-se prejuízo significativo em diferentes áreas da vida, tais como declínio da qualidade dos relacionamentos afetivos, insuficiente desempenho acadêmico, perda de vínculos sociais e profissionais. Esses danos na vida pessoal e social do sujeito podem ocorrer, entre outras razões, pelo tempo, cada vez maior que a pessoa ocupa fazendo os "rituais", chegando a níveis insustentáveis, quando começam as faltas a escola, trabalho, atrasos nos compromissos, etc.
       O tratamento adequado requer avaliação psiquiátrica, havendo, na maioria dos casos, necessidade de medicação, a fim de minimizar os sintomas, bem como a terapia, visando o treino de novos comportamentos, mais espontâneos e menos estereotipados.              
       Pessoas que possuem na família, pacientes com o transtorno, tendem a se adequar ao que, no senso comum, denominamos “manias”, entretanto nos casos mais severos, essas ações desorganizam a vida familiar e nos distanciam da possibilidade maior, durante nossa existência: ser felizes e mais satisfeitos com quem somos!!!
           

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

QUEM É ESSE NO ESPELHO?!

           Vida de gente grande não é fácil! Mas...quem foi que disse que tem que ser fácil para haver proveito, aprendizado e gosto?! Ouvimos com freqüência a frase “o que é bom custa caro” e penso que essa máxima pode se aplicar também as conquistas imateriais da vida! Porém o custo, neste caso, tem a ver com o tanto de esforço e comprometimento envolvidos no processo de busca daquilo que planejamos obter e ser como pessoas...
        Sem, nem por um momento desmerecer as conquistas materiais, tão gratificantes e necessárias também, discuto aqui as conquistas íntimas, pessoais de cada um...aquelas “aquisições” que nunca mais nos permitirão voltar a ser os mesmos de antes... Após a delícia de ser criança, experimentada na infância e a turbulência vivenciada quando se é adolescente, encaramos a difícil fase do jovem adulto que é tão cobrado! Estás trabalhando? Casado? Tens filhos? Só um menino? Ah, então vão atrás da menina...e por aí vai...incessante listagem de “critérios” que a vida nos impõe e que se não obedecemos a estes padrões, estamos à margem e podemos nos sentir sós...
         Parece que o alívio vem mesmo com a maturidade...tão doce quanto a infância, com sofrimentos, como a adolescência e as mesmas cobranças do jovem adulto, mas com diferentes recursos e instrumentos internos para lidar com as cartas “ruins” que a vida nos apresenta! E isso faz toda a diferença! Ah, se faz...Na maturidade as “gavetas” internas daquele roupeiro bagunçado se acomodam...os valores se consolidam e não tememos ser quem nós somos...se tivermos, claro, consciência de quem somos!!!
        Percebe-se que grande parte das pessoas adota “personagens” no desempenho de seus papéis e em determinados momentos de sua história entram em conflito, pelos “atrapalhos” em que vivem, pela desordem que experimentam ou pela ruína em que transformam suas vidas, pura e simplesmente porque se desconhecem! O processo de autoconhecimento realmente não é fácil, nem simples...requer atitude, persistência, dedicação e principalmente coragem! Temos que estar dispostos a enfrentar nossos “fantasmas” que, embora possam parecer, num primeiro momento assustadores, na verdade não o são tanto assim...pois se nos pertencem, vivem no nosso mundo interno, não podem ser maiores do que nós mesmos!
       Não importa o momento em que nos disponibilizamos a isso...o que importa é que quando decidimos que vamos nos “apresentar” a nós mesmos, é o exato momento em que isso deve ser feito...nem antes, nem depois...é agora! Quando desejamos nos conhecer é que é a hora certa!!! Os caminhos escolhidos para tal são particulares de cada um...tem a ver com suas crenças, com a disponibilidade emocional, financeira,com a influência do meio em que vivemos, etc...não importa se é num centro budista, na biodanza, através de livros e debates, na terapia ou em outras formas que o indivíduo escolher para vivenciar este processo. O que é realmente importante é que o faça! E o faça verdadeiramente...
      Os ganhos são imensos! Deixamos de ser reféns dos nossos sentimentos e emoções, nos apropriamos de nós mesmos, desenvolvemos segurança e originalidade nas nossas atitudes, estabelecemos um parâmetro interno, além de experimentarmos genuína satisfação por conhecer profundamente essa pessoa com a qual convivemos vinte e quatro horas por dia! Nós mesmos!
     Cuide dela, da sua companhia permanente e inseparável, escute sua voz interna, conheça e respeite os seus sentimentos, valorize suas conquistas íntimas e experimente a delícia (e as dores também) de saber quem você é! Não vai passar a vida alheio de si mesmo e tomar um susto ao olhar-se e pensar... Quem é esse no espelho?! Vai?!